03 julho 2017

Até que enfim

Só para registrar: depois de várias tentativas de entrar em meu blog, finalmente estou aqui.

29 outubro 2016

Latinório 2

Atribui-se a Santo Tomás de Aquino a expressão "Timeo hominem unius libri", que significa literalmente "Temo o homem de um livro só". 
Quanto ao significado da expressão, há duas interpretações.
Segundo uma delas, que também se atribui a Santo Tomás de Aquino, enfrentar um especialista, seja ele em que matéria for, é tarefa ingrata; o especialista se dedicou a fundo àquilo e dificilmente será sobrepujado.
Segundo outra interpretação, o "homem de um livro só" é o fanático, esteja ele no campo religioso, político, esportivo ou de regimes alimentares. Só ouve o que vem ao encontro de suas crenças, distorce os fatos  e tem por hábito desqualificar as pessoas que não comungam de seu pensamento que ele. Não percebe o quanto tem comportamento obsessivo.

17 agosto 2016

Latinório

Há muito tempo, Millôr Fernandes apontou que no lema da bandeira de Minas Gerais, o famoso "Libertas quae sera tamen", havia uma palavra sobrando: "tamen". Este pertenceria à continuação da frase e sua tradução seria "contudo". Mas o pessoal da época de criação do lema pensava diferente: quatro palavras em português devem corresponder a quatro palavras em latim, ora pois. 
Esse conceito matemático na base de x = x parece que continua valendo. Da famosa frase latina de Cícero, cuja tradução é "Afinal, até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência", deduziu-se que "Quousque tandem" se traduz por "Até quando", ora pois. Novamente o critério do x = x, que não tem nada a ver com traduções. "Quousque" já quer dizer "Até quando". Por sua vez, "tandem" é o "afinal" da citação traduzida acima.
Mas os jornais continuam insistindo que o nome da operação Quousque tandem se traduz por "até quando".

 

02 novembro 2014

Da Vinci e o Código Bananére: A propósito de certo passeio ao Hopi Hari

Da Vinci e o Código Bananére: A propósito de certo passeio ao Hopi Hari

A propósito de certo passeio ao Hopi Hari

Nesta quinta-feira passada, fui a uma escola da Zona Norte de São Paulo e, chegando lá, tive a desagradável surpresa de verificar que não havia aulas. O motivo da falta de alunos foi o que mais me surpreendeu: acontecia, na ocasião, uma excursão ao Hopi Hari.
Fala-se tanto em melhorar a educação no País, as manifestações de rua do ano passado bateram muito nessa tecla, todos os candidatos das últimas eleições apregoaram grande preocupação com o tema – e me deparo com quê? Com um passeio ao Hopi Hari em dia de aula.
O que há de contribuição cultural nisso eu não consigo ver.
O que me intriga, então, é a pergunta: quem ganha com tal iniciativa?
Os alunos eu diria que não! Somente foram ao passeio aqueles que puderam pagar a excursão e aos demais restou a opção de comparecer às aulas. Obviamente, não compareceram. Considerando que há uma favela nas proximidades da escola e que dela provém grande parte dos alunos, tem-se de cara uma forte exclusão dos menos favorecidos. Mais antipedagógico impossível.
Por enquanto, parece-me que saíram ganhando apenas o Hopi Hari, que vendeu os ingressos, e a empresa de turismo, que levou a criançada. Ou seja, uma jogada comercial prevaleceu sobre a educação. Quem mais?

Não sei detalhes de onde veio o dinheiro para pagar os ônibus, mas isso pouco me importa, nem pesquisei para saber. Tampouco estou interessado em partidarizar o tema. Apenas acho tudo isso muito estranho e lamento que num simples episódio como esse a educação tenha ido mais uma vez para o ralo. 
A falta de seriedade vem à tona em episódios como esse.

30 agosto 2014

Licença poética

Num pequeno poema de Mário Quintana, o primeiro verso dá um bom exemplo do que seja licença poética: a desobediência às leis gramaticais em prol da melhor expressão de um sentimento ou apenas da boa musicalidade. O verso original é este:
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Só o hábito de ler bons autores com frequência possibilita perceber a sutileza contida numa licença poética como esta.
Pelo Facebook, já recebi de mais de uma fonte uma versão piegas do poema original. A versão naturalmente altera o verso inicial (que fica sendo A vida são uns deveres...), piora o texto e termina com o acréscimo de alguns pensamentos banais sobre o amor – coisa que Mário Quintana nunca escreveu.
A internet infelizmente é uma fonte de baixíssima confiabilidade. Há sempre alguém “melhorando” algo a seu bel-prazer, sem nenhum respeito pela autenticidade do que publica e, sobretudo, sem nenhum respeito pelo direito autoral.
A quem interessar possa, aqui vai o poema original de Mário Quintana – cujo título é Seiscentos e sessenta e seis, e não outro inventado por aí:

A vida é uns deveres que trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora é tarde para ser reprovado...
E se me dessem – um dia – outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio,
seguia sempre, sempre em frente.

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil
das horas.


Licença poética

Num pequeno poema de Mário Quintana, o primeiro verso dá um bom exemplo do que seja licença poética: a desobediência às leis gramaticais em prol da melhor expressão de um sentimento ou apenas da boa musicalidade. O verso original é este:
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Só o hábito de ler bons autores com frequência possibilita perceber a sutileza contida numa licença poética como esta.
Pelo Facebook, já recebi de mais de uma fonte uma versão piegas do poema original. A versão naturalmente altera o verso inicial (que fica sendo A vida são uns deveres...), piora o texto e termina com o acréscimo de alguns pensamentos banais sobre o amor – coisa que Mário Quintana nunca escreveu.
A internet infelizmente é uma fonte de baixíssima confiabilidade. Há sempre alguém “melhorando” algo a seu bel-prazer, sem nenhum respeito pela autenticidade do que publica e, sobretudo, sem nenhum respeito pelo direito autoral.
A quem interessar possa, aqui vai o poema original de Mário Quintana – cujo título é Seiscentos e sessenta e seis, e não outro inventado por aí:

A vida é uns deveres que trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora é tarde para ser reprovado...
E se me dessem – um dia – outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio,
seguia sempre, sempre em frente.

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil
das horas.


16 agosto 2014

Uma fábula (muito) contemporânea

No tempo em que os animais falavam, reuniram-se certa vez, numa terra distante chamada Bambilândia, o frango, o pato e o ganso. Buscavam uma saída para a insolúvel questão da fragilidade avícola. Chamavam-se pelo nome:
– A natureza foi injusta conosco. Temos asas, como qualquer ave, mas não sabemos voar – reclamou o ganso Henrique.
– Isso nos torna presa fácil do terrível gavião – completou o pato Alexandre.
– Mas vocês dois pelo menos podem fugir para a água – rebateu o frango Rogério.
– E adianta? Há até peixe querendo nos pegar.
No calor da conversa e sentindo-se abrigados sob o arbusto murici, os três não perceberam a proximidade do porco e foram devorados.

27 julho 2014

Os menino pega o peixe

Sempre que leio sobre propostas de simplificação da Língua Portuguesa, acho que elas estão imbuídas de segunda intenção. Os proponentes, ao dizerem uma coisa, pretendem na verdade colher outra – mais poder, muito provavelmente.
No Senado, há um grupo de trabalho que quer mudar o recente Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa com o objetivo de tornar o idioma “claro e acessível a todos”. De duas, uma: ou os integrantes do grupo de trabalho não leram o Acordo ou não o entenderam. Se não o leram, que o leiam de ponta a ponta. Se não o entenderam, que voltem aos bancos de escola. Mas o mais provável mesmo é que estejam a serviço de segundas intenções. Seria possível  apenas para tomar um exemplo  tornar “acessível a todos” uma argumentação de ministro do Supremo Tribunal Federal? Não, simplesmente porque seu vocabulário é técnico e cada termo empregado tem um significado preciso. Nem poderia ser diferente. 
Muita gente também não consegue entender um parágrafo com mais de três linhas porque o considera confuso. Ora, confuso é o leitor, não o parágrafo.
O tal grupo de trabalho no Senado defende ainda “a necessidade de uma língua mais abrangente e democrática que promova a inclusão social”. Isso me soa como um grande contrassenso: língua mais abrangente é exatamente aquela com vocabulário mais rico e que, por isso mesmo, consegue abranger um universo maior de ideias.
Um dos defensores da simplificação ortográfica argumenta que ela “é a porta para a eliminação do analfabetismo”. Por mim, a porta para a eliminação do analfabetismo é pura e simplesmente... a alfabetização. O resto vem depois. Não há necessidade de empobrecer o idioma com simplificações de qualquer natureza, se o objetivo é alfabetizar.